IA

Novos espaços de criação

Ateliê clássico e criação digital se conectam em uma cena sobre a evolução dos retratos e dos processos criativos.

Da pintura à fotografia, da fotografia à arte digital: cada tecnologia democratiza o fazer e desloca o lugar do talento.

No começo do século XIX, retratos pintados eram coisa da aristocracia, das famílias abastadas. Para os demais, gente como a gente, os retratos eram menos acessíveis, existiam na forma de pequenas gravuras feitas por artistas locais.

O retrato é uma forma de dizer “eu existi”. Antes de ser arte, o retrato preenche profundas necessidades humanas por memória, presença, identidade e reconhecimento social, que superam a passagem do tempo.

A inovação da fotografia permitiu a democratização do retrato. Foram necessários quase 30 anos, do primeiro registro até sua popularização, para que a fotografia ganhasse popularidade. E como quase toda nova tecnologia, primeiro a fotografia alcançou a elite e curiosos ricos. Por ser novidade, exigia equipamentos, novas técnicas e ainda era cara. Esse intervalo de 30 anos foi o tempo necessário para a tecnologia evoluir, o aprendizado ser disseminado e, consequentemente, assegurar a redução dos custos de produção. Um pequeno desvio: hoje, com tudo muito mais corrido, o tempo de difusão da inovação é coisa de meses.

A fotografia quebrou o monopólio do retrato como produto exclusivo da elite e do talento manual artístico. Se antes era preciso alguém com domínio de desenho, composição, anatomia, pintura, luz, acabamento e etc; com a fotografia, parte enorme desse trabalho passou a ser feita por um processo técnico/químico/mecânico.

Mesmo com uma “simplificação” na arte do ofício, ainda não se pode dizer que “não precisa de talento”. A exigência mudou de lugar. Sai um pouco a mão de quem desenha e entra a mão que opera a máquina, ilumina, enquadra, prepara a cena, dirige a pessoa fotografada, revela e retoca.

Assim, o retrato não dependia mais de um artista altamente treinado (e capaz) e passou a poder ser produzido por um ofício técnico mais replicável, com estúdios, equipamentos e processos padronizados. O retrato deixa de ser raridade, ou luxo artístico, tornando-se aos poucos um bem de consumo popular. Por volta de 1860-1890, famílias já trocavam fotos e cópias, montavam álbuns e colecionavam retratos como as cartes de visite.

Os movimentos de democratização do acesso e da produção artística (ou técnica) são contínuos e ocorreram em outros meios, por exemplo, migrando da literatura à imprensa e depois ao rádio, onde este último alcançava pessoas fora dos centros letrados, onde a educação formal e alfabetização eram mais restritas para as classes média e operária.

Sempre é mais fácil olhar para o passado e compreender as transformações, sejam positivas ou não, que viver o presente e interpretar, adequadamente, o ritmo das mudanças. Se você seguiu firme no texto até agora, meus parabéns, e minhas desculpas por ter dado algumas voltas. A Inteligência Artificial é o grande fator de ruptura do momento. Ruptura de produção, de empregos, de estética, de criatividade, de veracidade, de recursos naturais, sociais e econômicos. Longe de querer ter ideias fixas e muitas certezas, deixo alternarem meus sentimentos sobre a IA. A palavra de ordem é cautela.

Cada nova tecnologia desloca uma barreira de acesso. Na IA, a barreira passa a ser outra. O talento técnico ou manual é trocado pela capacidade de descrever e detalhar ideias e visões, escolher referências, dirigir o processo, editar, curar e dar sentido. A IA não elimina a arte ou o pensamento criativo, ela muda o lugar de autoria e as ferramentas que usamos.

Esta reflexão é uma forma de conciliação, minha (e talvez possa ser sua também), do papel transformador da IA no software, no design e no desenvolvimento. E também na arte. Se consigo admirar Akira e WALL-E, duas obras de animação que empregaram talentos e artifícios bem diferentes uma da outra, eventualmente poderei admirar obras feitas por IA, ou melhor, por talentos com maestria em usar IA, desde que estas obras sejam bem construídas e tenham sua própria relevância e autenticidade.

O profissional (designer, programador, artista) passa a ser menos “a mão que executa tudo” e mais um diretor de visões: alguém que cria conceitos, escolhe linguagem, define e detalha ideias e limites, reconhece acidentes e transforma resultado bruto em obra. É certo que mais pessoas serão capazes de produzir o que antes era exclusivo aos especialistas, só que nem todo resultado irá virar produto ou terá valor aplicado. O que fará diferir o resultado de cada criação é a experiência do autor, seu repertório profundo, visão técnica, contexto e pensamento crítico.

by:
João Frescurato
Sócio, COO